A Religião Artoniana

Por Licorne Negro - março 17, 2015

O Panteão de Arton.


Já avisando que este é um artigo grande, então se preparem!

O mundo de Arton, onde passa-se o cenário de Tormenta RPG, é um mundo de deuses. Vinte deuses maiores governam os principais aspectos da realidade do mundo, e uma miríade de deuses menores dividem entre si diversas áreas de influência conceituais, e algumas destas "pequenas divindades" até mesmo governam seus próprios reinos, como o dragão-rei Sckar, regente de Sckarshantallas.

Os habitantes desse mundo convivem diretamente com a influência de seus deuses, seja através de clérigos, paladinos, druidas, de eventos naturais e sobrenaturais causados pessoalmente pelos próprios deuses (como foi a Saga dos Rubis da Virtude, o nascimento e ascenção de Thwor Ironfist, a queda de Lennórien, a Academia Arcana, a própria Tormenta, e muitas outras coisas), ou até da própria manifestação física dos deuses, sejam os avatares dos deuses maiores ou a pessoa dos deuses menores.

Como é dito no Módulo Básico Revisado (página 119): "Em Arton, você pode venerar os deuses em troca de seu poder divino. Pode apenas demonstrar o devido respeito. Você pode até temer ou odiar os deuses. A única coisa quase impossível neste mundo é ser indiferente aos deuses — você pode tentar não dar atenção a eles, mas cedo ou tarde algum deles dará atenção a você!"

O presente artigo, bem como os que se seguirão, não pretende falar da relação dos deuses com seus devotos mais fervorosos (sejam clérigos, druidas e paladinos, ou não), mas sim da relação dos deuses (em especial do Panteão) com a população comum. Bárbaros, agricultores, comerciantes, burocratas, servos, donas de casa, soldados e outras pessoas comuns.

E a primeira coisa importante a ser dita sobre a religião artoniana é que se trata duma religião politeísta. Devotos fervorosos de deuses específicos podem ser monólatras (reconhecem muitos deuses, mas adoram e prestam culto a apenas um, buscando nele respostas para todos os aspectos de suas vidas), mas a população geral reconhece e reverencia, ou ao menos teme, a muitos dos deuses do Panteão (quando não todos) e mais um bom punhado de deuses menores.

A relação dos artonianos com seus deuses é uma relação complexa. Não há uma única igreja centralizada e unificada do Panteão e dos deuses menores, cada deus tendo sua(s) própria(s) igreja(s), e essas costumam ter vertentes dentro de si, com discordâncias sobre os detalhes de suas crenças. Apesar de sumo-sacerdotes, avatares e mensageiros divinos (além dos próprios clérigos, druidas, paladinos e outros devotos) servirem como intermediários entre a deidade e seus servos, não há dogmas rígidos, e mesmo para deuses como Khalmyr, há diferentes interpretações de suas palavras divinas.

O politeísmo do indivíduo artoniano típico torna tudo ainda mais complicado. Antagonismos entre os deuses são ignorados por aquele que deseja receber a justiça de Khalmyr e a boa sorte de Nimb. Tauron é odiado por boa parte dos habitantes do Reinado após as Guerras Táuricas, mesmo em Yuden onde antes ele era tolerado e até respeitado. Muitos artonianos, ainda, adotam um deus especial como seu patrono, por mais que nem todos o façam. Um patrono não é um deus que recebe adoração exclusiva, mas sim um que, por qualquer motivo que for, sejam motivos práticos, gratidão especial, ou talvez tradição de família, é foco especial da adoração.

Naldo Harfytz, halfling agricultor.
Por exemplo, um dado agricultor halfling de Hongari, chamado Naldo Harfytz, certamente rezará para Lena pedindo por uma boa safra, participando das Festas do Escudo quando a Lua está cheia. Para Allihanna e Megalókk ele oferecerá ofertas de paz, afim de que estes mantenham os animais e monstros selvagens, e mesmo os animais do vizinho, longe de sua fazenda. Ele também pediria a Marah e a Keen que afastasse tanto exércitos quanto bandos de saqueadores e bandoleiros de perto de suas terras, além de pedir boa convivência com seus vizinhos.

Belanbada, deusa menor do outono, Camélia, deusa menor da primavera, Crisádis, deusa menor do inverno, e Suhallin, deus menor do verão, certamente receberiam a devida atenção de Naldo durante os solstícios e equinócios de Dia do Reencontro, Dia do Duelo, Noite Longa e Dia da Alegria. Talvez também ele já tenha ouvido falar de Teldiskan, um deus menor do clima adorado em Deheon e vizinhanças, e ache boas maneiras dedicar algumas rezas ao deus ocidental quando o clima não parece cooperar.

Quando alguém de sua parentela, vizinhos e amigos se casa, o senhor Harfytz irá ao templo mais próximo de Marah, onde a maioria dos casamentos são realizados (pois Marah também é a deusa do amor), para parabenizar os noivos. Quando alguém morre entre seus mais chegados, ele invocará Thyatis para que leve a alma do falecido em paz para os Reinos dos Deuses, e guie os vivos através dessa terrível perda. Se uma praga vier a assolar a região, ele invocará a Lena por curas, e a Leen (Ragnar) por piedade.

Nos grandes festejos, já embreagado, ele derramará vinho no chão em honra a Hyninn e aos seus ancestrais. Ele cantará cantigas de ninar que falem sobre Neirute, deusa menor dos sonhos, para seus filhos pequenos. Em suas negociações ele se recordará de Tibar enquanto entrega ou recebe moedas com o rosto do deus menor do comércio em troca de certo produto ou serviço. E sempre que ele temer seu futuro, ele pedirá a Nimb por boa sorte.

Naldo Harfytz é um amante da vida simples, e foi criado ouvindo as histórias sobre como Marah adotou os halflings como seus próprios filhos após sua criação por Hinynn, e por isso ele mantém um pequeno oratório com uma imagem de Marah na sala de sua casa.

Isso não quer dizer que Naldo reverencie a todos os deuses igualmente. Alguns, como Leen (Ragnar), Kallyadranoch, Keen, Megalókk, Tauron e Tenebra, ele teme respeita, e até mesmo lhes faz oferendas de paz, para que eles não se enfureçam contra ele, mas não os adora de forma constante, ou mesmo de boa vontade. Outros, como Lin-Wu, Oceano, Wynna e Valkária são distantes demais de seu dia-a-dia para ele se preocupar muito com eles, exceto quando eles estão perto demais para ele não se preocupar. Mas há deuses a quem Naldo Harfytz odeia, contra os quais ele pede por proteção, não para eles, mas para outros deuses.

Sszzaas, deus da traição.
Sszzaas, Aharadak (deus menor da  Tormenta), Garth (deus menor da pólvora), Mzzylein (deus menor do mal), e outros são nomes de maldição, mau-augúrio e ruína para Naldo. Ele não os ama, nem os respeita, sequer os teme reverencialmente, senão os odeia. Diferente do que poderia acontecer com Megalókk ou Leen (Ragnar), o ódio do senhor Harfytz não se dirige apenas aos clérigos e devotos desses deuses, mas aos próprios seres divinos. Não há neles, para ele, características redentoras, nem mesmo uma função natural (ou divina) que justifique a existência desses deuses. "Que tenha Sszzaas por amigo!" é uma praga terrível, ainda mais para alguém de um povo tão amigável e gentil como os halflings. O nome de Mzzylein é praticamente um palavrão, usado no máximo como interjeição para quando coisas muito ruins acontecem. Todos temem sequer falar o nome de Aharadak, por medo de chamar a atenção da tempestade rubra. E ninguém da comunidade de Naldo gosta de pistoleiros, pólvora, ou seu deus ensandecido, pois são considerados baderneiros da pior espécie, quando não assassinos.

Assim como Naldo Harfytz e sua comunidade halfling no interior de Hongari, muitos artonianos também odeiam certos deuses. Ainda que a maioria dos druidas e bárbaros que seguem a Allihanna ou Megalókk tenham algum respeito pelo outro deus, alguns vêem ao outro como um inimigo mortal a ser amaldiçoado e cuja influência deve ser combatida. A maioria dos seguidores de Keen reconhecem o papel e a importância de Marah, mas há aqueles que a vêem como uma deusa tão anti-natural quanto a Tormenta, uma ameaça secreta no seio do Panteão. E a tribo de Sar-Allan do Deserto da Perdição compartilha o ódio de seu deus patrono, Azgher, por Tenebra.

Não há respostas simples e amplas quando falamos da religiosidade em Arton. As experiências dos indivíduos e das sociedades informarão sua relação com os deuses, e o artoniano típico não buscará basear sua vida num único deus, mas buscará diferentes deuses para diferentes ocasiões, comandado não pelos dogmas de sua fé, mas pela necessidade.


Então é isso pessoal! Espero que gostem do artigo (caso consigam lê-lo por inteiro). E qualquer dúvida, me perguntem. Quero nos próximos artigos desenvolver a relação do artoniano típico (mais especificamente, do deheoniano típico) com deuses específicos do panteão. Gostariam que eu começasse com algum em especial? Deixem os comentários aí embaixo! =)

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